quarta-feira, outubro 15, 2008

Um

"Lá pelas onze, como todas as noites, Camargo abre as cortinas do seu quarto na Calle Reconquista, coloca a poltrona a um metro de distância da janela para que a penumbra o proteja e espera que a mulher entre no seu ângulo de visão. Às vezes passa como um lampejo pela janela da frente e desaparece na casa de banho ou na cozinha. Do que ela mais gosta, no entanto, é de parar diante do espelho do quarto e despir-se com suprema lentidão. Camargo pode, então, contemplá-la à sua vontade. Há muitos anos, num teatro de variedades de Osaka, viu uma bailarina japonesa despojar-se do quimono de cerimónia até ficar completamente nua. A mulher da frente tem a mesma elegância altiva da japonesa e repete as mesmas poses de fingido assombro, mas os seus movimentos são ainda mais sensuais. Inclina a cabeça como se tivesse perdido alguma lembrança e, depois de passar a ponta dos dedos por baixo dos peitos, lambe-os com delicadeza. Para não perder nenhum detalhe, Camargo observa-a através de um telescópio Bushnell de sesseta e sete centímetros que está montado num tripé." (p. 9)

Começa assim. "O voo da raínha", de Tomás Eloy Martínez

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