Sábado, Outubro 10, 2009

"A misteriosa chama da Rainha Loana", Umberto Eco

Leio o romance ilustrado "A Misteriosa Chama da Rainha Loana", de Umberto Eco. E estou a gostar muito, muito, muito. A memória é um território fascinante.

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

meu querido amor da minha vida

(...) "E assim a trato, pela última vez, de meu querido amor da minha vida, sem desespero, sem violências passionais, sem a voz embargada, sem recriminações, sem pressões de qualquer espécie, exausto e sem quaisquer expectativas, mas com a total, desolada e solitária naturalidade de esse amor ter sido verdade, a verdade mais funda, mais abaladora, mais importante e mais decisiva da minha vida, e procurando fazê-lo também sem saudades lancinantes, o que me está a custar os olhos da cara, não lho escondo.
Aliás, digo "ter sido" só para preparar o terreno, porque estas coisas levam muito, muito tempo, não são fáceis nem rápidas de descartar e implicam uma cirurgia muito dolorosa e aplicada fibra a fibra. Só quero rasurá-la da lembrança, de todas as lembranças do que poderia ter-me sido mais caro e mais essencial." (...)
pag. 173-174

Quarta-feira, Agosto 12, 2009

"Meu amor, era de noite", Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura já publicou 60 livros e eu nunca tinha lido nenhum, apenas poemas dispersos.
Quando me apercebi disto, achei imperdoável, afinal não se pode ter opinião sem conhecer, e foi assim que comprei este romance.
A verdade é que não estou a gostar.
Posso apenas ter escolhido mal. Posso não estar nos meus dias. Não sei. Mas sei que não estou a gostar. É ligeiro. Estou quase a meio e ainda não retirei nada da leitura. Apetecia-me já ter acabado porque eu detesto deixar livros a meio.
Será porque ele começa uma frase por "às tantas..."? Será porque os amantes se tratam por "você"?
Obviamente que ele escreve bem, isso não está em causa. Mas...não estou a gostar de ler "Meu amor, era de noite".

Sexta-feira, Julho 10, 2009

mais de um século

Como é que que um livro escrito um século antes de eu ter nascido pode ser uma leitura tão agradável? Este é o mistério que torna alguns livros eternos.

Sexta-feira, Maio 08, 2009

"O jogador", Fiodor Dostoievsky

Eis o livro que hoje começo a ler. Tenho a impressão de que vou gostar.

Sexta-feira, Maio 01, 2009

..um duplicado do nosso própio problema

"Ser amado por uma pessoa é apercebermo-nos de que essa pessoa partilha as nossas necessidades, a satisfação das quais nos empurrou para ela. Albert Camus sugeriu que nos apaixonamos por pessoas porque, de fora, nos parecem em ordem, fisicamente em ordem e emocionalmente "organizadas", quando nós próprios nos sentimos dispersos e confusos. Não amaríamos se não sentíssemos em nós uma falta qualquer, mas, paradoxalmente, enfurece-nos verificar que há uma falta semelhante no outro. Cheios de esperança de encontrar uma resposta, encontramos, afinal, um duplicado do nosso próprio problema."

"Ensaios de Amor", p.56

Segunda-feira, Abril 06, 2009

uma confirmação permanente do eu

(....)
2. Talvez seja verdade que não existimos enquanto não houver quem veja que nós existimos, que não falamos enquanto não houver quem ouça o que estamos a dizer, no fundo, que não estamos completamente vivos enquanto não formos amados.

3. O que significa "o homem é um animal social"? Apenas que os seres humanos precisam dos outros para se definir e conhecer a si próprios, ao contrario dos moluscos e das minhocas. Não podemos ter uma noção correcta de nós próprios se não existirem outros para nos mostrarem como somos. "Um homem pode alcançar tudo na solidão, excepto um carácter", escreveu Stendhal, sugerindo que o carácter tem a sua génese nas reacções dos outros a nós próprios. Como o "eu" não é uma estrutura integrada, a sua fluidez requer os contornos fornecidos pelos outros. Precisamos dos outros para nos sentirmos completos, de alguém que nos conheça tão bem como nos conhecemos a nós próprios ou melhor ainda.

4. Sem amor, perdemos a capacidade de possuir uma identidade própria; com amor, há uma confirmação permanente do eu. Não admira que o conceito de um Deus que nos observa a todos seja central em muitas religiões: sermos vistos significa que existimos e tanto melhor se o observador for Deus ou alguém que nos ama. (....)

"Ensaios de amor", pag. 112

Segunda-feira, Março 30, 2009

"Ensaios de Amor", Alain de Botton

Graças a este livro, consegui perdoar-me por ter lido o anterior. É verdadeiramente um bom livro. Recomendo. Gostei muito. Obriga a pensar. Tem tudo o que deve ter um Livro.

Domingo, Março 01, 2009

"p.s. - eu amo-te", Cecília Ahern

Minha culpa, minha culpa, minha culpa....Mas uma coisa é certa: foi uma vez sem exemplo...Não gosto e ponto final. Não voltam a apanhar-me a ler coisas deste género.
Quis dar o benefício da dúvida e decidi ler o livro por respeito para com a pessoa amiga que mo ofereceu com as melhores das intenções.
Cada página foi um sacrifício. Só pensava: quem é que não escrevia isto? Uma simples descrição de factos e situações...qualquer pessoa consegue escrever.

Terça-feira, Fevereiro 03, 2009

Um pensamento amargo

"Tenho na minha frente as torres e fortificações de Toledo, antiga capital de Espanha. Situa-se no topo de uma elevação para lá da ravina e acabo de decidir tomar apontamento de todos os acontecimentos importantes da minha vida. Para que as pessoas fiquem a saber o que eu passei.
Mas quem se interessará o suficiente para ê-los? Estou provavelmente a perder o meu tempo. Que diferença faz? Os homens não são irmãos mas sim descomnhecidos que não estão nada interessados nas histórias particulares uns dos outros. Ninguém dá um tostão furado por ninguém.

Mark Niven tinha catorze anos quando escrveu isto na primeira pági d seu diário e o que quis dizer foi exactamente o que escreveu, pois nunca mais lhe acrescentou uma linha.
O diário propriamente dito é um livro pesado, encadernado a marroquim azul, com uma espada gravada a folha deouro na capa. Obviamente, deve ter achado que era objecto demasiado caro para se deitar fora."

p. 11,início de "O milionário inocente", de Stephen Vizinczey

Domingo, Fevereiro 01, 2009

"O milionário inocente", Stephen Vizinczei

Um romance fabuloso. Adorei. E recomendo.

Terça-feira, Janeiro 20, 2009

A casa do general...

(...)
"A casa do general ficava situada no alto de um rochedo muito íngreme. Só havia uma maneira de subir o rochedo - era preciso descer. " p. 15

Assim também é muitas vezes na vida. O percurso não é em linha recta. Para subir é preciso descer. E por vezes desce-se porque se subiu.

O livro é uma metáfora e eu sempre gostei de metáforas.

Segunda-feira, Janeiro 19, 2009

"Ao encontro do general", Ana Rodrigues

Comprei este livro porque simpatizei com a autora. Gostei da forma como se exprimia. Gostei das palavras que usava para tentar descrever o porquê da sua aventura pela escrita. Gostei e comprei o livro. Acho uma razão válida, ou não?

Sábado, Novembro 01, 2008

"O estrangeiro", Albert Camus

Começa assim:
"Hoje, a mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: "Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames." Isto não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.
O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilómetros de Argel. Tomo o autocarro das duas horas e chego lá à tarde. Assim, posso passar a noite e velar e estou de volta amanhã à noite. Pedi dois dias de folga ao meu patrão e, com uma razão destas, ele não mos podia recusar. Mas não estava com um ar muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe: "A culpa não é minha." Não respondeu. Pensei então que não devia ter dito estas palavras. A verdade é que eu não tinha de me desculpar. Ele é que tinha de me dar os pêsames. Mas com certeza o fará, depois de amanhã, quando me vir de luto. Por agora, é um pouco como se a mãe não tivesse morrido. Depois do enterro, pelo contrário, será um caso arrumado e tudo passará a revestir-se de um ar mais oficial."

E eu envergonho-me por dentro e pergunto-me e fico atrapalhada por não saber responder. Porque é que eu ainda não tinha lido nada do Albert Camus?

Quarta-feira, Outubro 15, 2008

Um

"Lá pelas onze, como todas as noites, Camargo abre as cortinas do seu quarto na Calle Reconquista, coloca a poltrona a um metro de distância da janela para que a penumbra o proteja e espera que a mulher entre no seu ângulo de visão. Às vezes passa como um lampejo pela janela da frente e desaparece na casa de banho ou na cozinha. Do que ela mais gosta, no entanto, é de parar diante do espelho do quarto e despir-se com suprema lentidão. Camargo pode, então, contemplá-la à sua vontade. Há muitos anos, num teatro de variedades de Osaka, viu uma bailarina japonesa despojar-se do quimono de cerimónia até ficar completamente nua. A mulher da frente tem a mesma elegância altiva da japonesa e repete as mesmas poses de fingido assombro, mas os seus movimentos são ainda mais sensuais. Inclina a cabeça como se tivesse perdido alguma lembrança e, depois de passar a ponta dos dedos por baixo dos peitos, lambe-os com delicadeza. Para não perder nenhum detalhe, Camargo observa-a através de um telescópio Bushnell de sesseta e sete centímetros que está montado num tripé." (p. 9)

Começa assim. "O voo da raínha", de Tomás Eloy Martínez

Quinta-feira, Outubro 09, 2008

"O voo da rainha", de Tomás Eloy Martinez

Um livro que me prendeu do início ao fim, do primeiro ao último instante. Tomás Eloy Martinez é um autor argentino de quem nunca tinha ouvido falar. Comprei o livro um pouco ao acaso, durante um curto período de férias no Porto Santo e li-o em dois dias. A história tem como cenário a comunicação social, mas a história vai muito além. É uma história de obsessão, de voyeurismo, uma história contada de uma forma intensa, em que o leitor por vezes parece partilhar os segredos do enredo mas depois é apanhado totalmente de surpresa.
Recomendo.

Terça-feira, Setembro 30, 2008

Caminhos perdidos na madrugada

Porque razão ficamos às vezes com os livros guardados muito tempo antes de os lermos? Não sei. Tenho este livro desde 2001, ainda por cima com um autógrafo do próprio autor, e só agora o li. E que agradável surpresa! Um romance muito bem escrito. Um tema muito interessante. Prendeu-me desde o início ao fim. Ao Costa Monteiro, resta-me pedir desculpa pela demora e agradecer os bons momentos de leitura.

Terça-feira, Setembro 16, 2008

Do grande e do pequeno Amor

Uma experiência que nos deixa com um sorriso nos lábios e a recordar as fotonovelas de antigamente.

Domingo, Setembro 07, 2008

"O maior tesouro dos portugueses", Manuel Pais

O Manuel Pais também escreveu no DN-Jovem, tal com eu. (Que saudades desse tempo, que saudades da espera semanal pelo DN das terças-feiras para ver se lá vinha o texto que enviara, ou ao menos uma resposta em letras pequeninas, escrita no final do caderno Jovem.) Alguns anos depois de ter deixado de colaborar, por imperativos da idade, e quando o Dn - Jovem já só existia na net, e por isso já não era a mesma coisa, cruzei-me com o Manuel Pais no mundo virtual e trocámos por correio aquilo que tínhamos escrito. "O Maior tesouro dos portuguese" ficou na estante à espera e li-o agora. De início, li com estranheza mas depois fui-me habituando à linguagem e acabei agarrada ao livro, e atenta aos inúmeros jogos de linguagem, quase em cada linha há um. O Manuel Pais brinca com as palavras e com os seus muitos sentidos e sentidos próximos e sentidos duplos. Para ele, a escrita parece um jogo de brincar às palavras e aos sentidos das palavras. A escrita é um jogo. E eu gostei.

Quarta-feira, Agosto 06, 2008

"Contos desaparecidos", João Aguiar

Gostei. Especialmente do conto mais irónico de todos. A ironia, quando é bem abordada, é fabulosa.

Sexta-feira, Junho 06, 2008

Vencedor Vencido

Estive a ler este livro, que me foi oferecido pelo próprio autor. Embora escrito na terceira pessoa, narra a saga do próprio autor como emigrante na Suécia, onde chegou como refugiado político durante o tempo da ditadura salazarista. Num português correcto, o autor não se limita a narrar os acontecimentos, também demonstra capacidade reflexiva, filósófica, e uma visão cultural e histórica bastante interessante.
A Suécia não é um dos países tradicionais da emigração madeirense; é uma cultura completamente diferente e o autor consegue mostrar bem as dificuldades de adaptação a uma sociedade em tudo tão oposta, mas onde foi possível vencer. A força de vontade acaba por ser, sempre, o que mais pesa.

Quarta-feira, Abril 02, 2008

um pedaço de neve que derretia

"E Rosa percebeu de repente que se estavam a passar coisas no jardim, um pedaço de neve que derretia e escorregava de uma árvore, uma nuvem que escondia o sol e transformava tudo por instantes, a mão da miúda cheia de neve com a qual ela fazia uma bola que depois pousava no chão ao seu lado."

Pag.66

Leio. Leio. Leio devagar, fascinada. Parece que consigo tocar em cada floco de neve, e ouvir cada rumor, e sentir toda a estranheza de tudo. E andar no jardim misterioso e entrar na casa e ver a miúda que nunca tem frio e parece que mais ninguém vê. Escrever é isto.

Terça-feira, Abril 01, 2008

uma leve impressão de felicidade

"Gostava de acordar no seu quarto todas as manhãs. Uma leve impressão de felicidade no ar, como um cheiro a flores, ou a neve, em tempos imaginara que a neve tinha cheiro.
Havia qualquer coisa naquela casa que a fazia lembrar-se de livros infantis, os longos corredores e os quartos fechados, os degraus, tinha de subir três degraus para entrar em alguns quartos, e claro, tinha de descer cinco para entrar na cozinha, a cozinha de livros e de crianças, descobrira ao fundo uma porta que dava para uma cave."

pag 55

beleza assombrada

Michael, ele chamava-se Michael, e era de uma beleza assombrada, com qualquer coisa de terrível.
O princípio do terrível, murmurou.
Lembrou-se do longo passeio pelas ruas mal iluminadas, da miúda de pernas compridas que agora lhe parecia um fruto da sua imaginação. Mas não era importante.
Talvez a miúda fosse um fantasma, mas trouxera-a para um lugar chamado Jamaica Inn. Rose teve um arrepio de prazer. Estava num lugar chamado Jamaica Inn e ia enocntrar-se com um homem que ra descendente de piratas, que talvez fosse violento, gostava de homens violentos.

pag. 43

Segunda-feira, Março 31, 2008

fazer nevar...

"Chamo-me Michael, disse ele.
E ela pensou, não é um anjo caído, é um dos outros, de qualquer forma é muito velho, quase tanto como eu.
Era uma das ideias estranhas que tinha às vezes, a de que existia desde sempre, e era capaz de fazer chover, e fazer nevar, era uma dessas ideias que tinha muito tarde, quando começava a ficar com sono, e que no fundo só queria dizer que ela escrevia livros, e só pode escrever livros quem existe há muito tempo e ainda se lembra, pelo menos vagamente." Pag.36

Leio o livro quase de um fôlego só, sem conseguir respirar, sentindo também que existo há muito tempo, e de que me lembro. Vagamente.

Domingo, Março 23, 2008

no nevoeiro e na chuva

"E quando a solidão se tornava insuportável, ele apareceu. Na verdade fui eu que o procurei, sem saber o que fazia, no nevoeiro e na chuva, perto do mar. Há muito tempo, quando o Inverno começava." Pag. 15

"A Neve", Ana Teresa Pereira

então delicio-me na escolha de um livro. escolho ler um livro pelos melhores motivos. folheio-o e escolho-o com a alma.

Um pouco de "Intuição"

- "Das sombras irreais da noite regressa a vida real que outrora conhecemos" - lia - "temos de recomeçar onde parámos, e eis que acima de nós se agita a terrível necessidade de continuar a despender energia na mesma fatigante sucessão de hábitos estereotipados ou um incontrolável anseio, talvez, de numa manhã abrir os olhos para um mundo que durante a noite foi remodelado para nosso deleite, um mundo no qual as coisas teriam novas formas e cores, e mudar..."
Fechou ruidosamente O Retrato de Dorian Grey, abriu a centrigugadora e retirou os seus tubos de ensaio coloridos. Como era estranho ficar-se cansado do mundo por falta de mudança. Por si, Feng sempre gostara de se levantar pela manhã e envcontrar tudo do mesmo modo como o deixara. Sempre apreciara em particular o facto de os objectos, por mais impacientemente que os procurássemos, não se poderem levantar e moverem-se espontaneamente de um lado para o outro. Havia uma tal satisfação no facto de os nossos livros e chaves estarem frequentemente no mesmo sítio onde os deixávamos. Perguntou-se, rindo de si mesmo, como lhe era característico, se não se dedicava a um trabalho de bancada, pelo facto de apreciar esse tipo de ordem mundana. Ele nunca veria encanto na investigação. (....) pag. 362

Acabei o livro que decidi ler com base talvez no critério mais estúpido para se começar a ler um livro: o de o termos à mão, não por nossa escolha, mas porque calhou de vir ter connosco, sem que o desejássemos ou quiséssemos ou sequer tivéssemos a mínima curiosidade. Mas tudo tem um lado positivo. Aprendi que esta não é a forma de escolher, seja em que momento for, ler seja o que for. Aprendi que não voltarei a fazê-lo.
Não, o livro não está mal escrito. Nem mal escrito nem mal traduzido. O romance está bem encadeado, como devem estar os romances, está. Mas este livro não tem absolutamente nada que me fale à alma. E isso sim. Isso é algo que todos os livros devem ter. Uma linguagem oculta que comunique com a nossa alma.

Sábado, Março 08, 2008

Intuição, Allegra Goodman

Eis a minha actual leitura. Um livro que me veio parar às mãos por mero acaso e que decidi abrir e começar a ler também por mero acaso. E assim, de acaso em acaso, cheguei à página 153.

Sexta-feira, Novembro 30, 2007

eram as estrelas





eram as estrelas, caminhante,
o mapa que não soubeste decifrar
mas vais continuar e continuar
perdido para sempre.


José Luís Peixito, in "A criança em ruinas"


Precisava de ler poesia. Precisava, urgentemente, de ler um poema que me fizesse chorar. Precisava.

Terça-feira, Novembro 20, 2007

Causas

"As causas aparentemente perdidas, trazem sempre alguns bons resultados...."(....)

pag. 258

Quinta-feira, Novembro 01, 2007

Reconhecimento

(...)

"Foi em Accra, um homem passou por mim na rua e voltou-se. Whaila. E foi como se nos reconhecessemos um ao outro."

Um Capricho da Natureza, pag. 202

Sexta-feira, Outubro 05, 2007

Um Capricho da Natureza, Nadine Gordimer

É a segunda vez que leio da Nadine Gordimer. A primeira coisa que li foi uma short story em inglês, matéria obrigatória quando fiz o meu curso de Línguas e Literaturas Modernas.
Tantos anos depois, comecei a ler "Um Capricho da Natureza" quase por acaso. Estava de férias no Porto Santo e apetecia-me ler, sabe tão bem estar de férias e andar agarrada a um livro.
Perguntei onde era a livraria, mas estava fechada nessa hora e no dia seguinte também não foi possível lá ir, já não sei porquê. Foi assim que acabei comprando um livro na Estação dos Correios. A escolha era pouca e quando dei por mim estava já na rua com este livro na mão. Tem quase 400 páginas (397, para ser mais precisa) e as linhas são demasiado juntas para o meu gosto. Mas está muito bem escrito e foi sem dificuldade que cheguei à parte onde vou agora, na página 176.

"(...) De início ela viu apenas as borboletas, uma profusão de borboletas que faziam vibrar o ar tranquilo e denso. Havia também flores brancas a transbordar de perfume. Hillella mergulhou nelas o rosto, como as borboletas também faziam. A selecção competitiva da natureza - árvores lustrosas e vorazes que tinham matado à fome os arbustos próximos abrindo espaços de ervas e plantas mais pequenas; trepadeiras e lianas devorando as outras árvores que haviam cometido o erro de nascer demasiado perto - dera origem ali a uma espécie de jardim; ou seria talvez efeito de uma recomposição humana da natureza, uma intervenção muito antiga, mas ainda precariamente identificável sob a forma natural da vegetação, como as linhas de uma cidade perdida que se distinguem do alto de um avião em pleno voo.(...)"

Hillela é a personagem principal. Ela é o tal "capricho da natureza", a que se refere o título.

Sexta-feira, Setembro 14, 2007

A morte da avó

" (....)
Repeti: - Avó - e a mão agitou-se, sem eu saber o que significava isso quanto à eficácia das vozes e à existência dessa tal atenção que se reconduziria, etc. - Quer que chame o padre?
Sim, decerto: já expliquei. Ela frequentava o culto, mandava celebrar missas pelos seus mortos, confessava-se e comungava. (....)
A avó abre os olhos, e eu vejo uma nova luz áspera e gelada: a inteligência, uma energia que de repente recompõe todo o corpo e traz agora o retrato para o centro do tempo, tornando-o movimentado e audaz, completo. Nesse olhar progride agudamente um sorriso que o limpa da velhice e deixa o sal de uma fina malícia. Os lábios mexem-se, parecem brilhar um instante. O corpo renasce do próprio esgotamento. A avó diz:
- É tudo mentira....
(...)
pag. 134-135

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

Os Passos em Volta, Herberto Helder

Parece absurdo, como alguns dos mais belos textos deste livro, eu sei que parece assombrosamente absurdo, mas leio Herberto Helder deitada na cama e doente. Não encontro explicação para esta minha escolha, precisamente num dia em que me sinto tão mal.
Mas porque é que tudo deve ser explicável? Não deve.

"Era um cão que tinha um marinheiro. O cão perguntou à esposa, que se pode fazer com um marinheiro? Põe-se de guarda ao jardim, respondeu ela. - Não se deve deixar um marinheiro à solta no jardim, que fica perto do mar. Um marinheiro é uma criatura derivada por sufixação, e pode recear-se o poder do elemento de base: o radical mar. Em vez de guardar o jardim, ele acabaria por fugir para o mar. - Deixá-lo fugir, disse a esposa do cão. Mas ele não estava de acordo. Que um facto deveria ser esse mesmo facto até ao limite do possível: quem possui um marinheiro para guardar o jardim deve procurar mantê-lo a todo o custo, assim como o cão, ou o casal de cães, que não tiver um marinheiro deve não tê-lo até a isso ser absolutamente forçado. - Nesse caso, só nos resta ir para uma terra do interior, longe do mar, disse a cadela. E então foram para o interior, levando pela trela o marinheiro açaimado. Durante o percurso viram muitas paisagens. O marinheiro estava espantado com as paisagens que podem existir longe do mar. Fez diversas observações a esse respeito, provocando o risonho latido dos cães que, pela sua parte, concordavam em que tinham um marinheiro muito inteligente. - Nem todos os cães têm a nossa sorte, disse o cão, pois conheço vários cães que são donos de vários marinheiros estúpidos. Iam por isso bastante contentes e diziam, a outros cães com quem se cruzavam, que possuiam um marinheiro invulgarmente esperto. - Ele tem uma filosofia das paisagens, dizia o cão. (....)" Pag. 126

O resto? Leiam. A escrita e a leitura e as palavras e as histórias têm um significado diferente depois de ler talvez o melhor escritor português da actualidade. Eu digo talvez porque é só a minha opinião. Apenas por isso.

Segunda-feira, Setembro 10, 2007

no lado esquerdo da alma

Leio Mário de Sá Carneiro, num dos meus habituais intervalos para ler poesia.
Devagar. É assim que leio.
Saboreando as palavras. Entrando nelas e demorando-me em cada uma, num ritual antigo e novo. Sempre.

Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim d'alma esquecida,
Dormir em paz num leito d'hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-novo, fui-me Deus
No grande rastro fulgo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu...Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Paris, 15 de Maio de 1913

Quarta-feira, Setembro 05, 2007

A Chuva Pasmada, Mia Couto


Sei que hei-de ficar sempre pasmada. Sempre que tiver à minha frente a escrita mágica de Mia Couto. Sempre.

"Não era tristeza. Era um vazio. Os tristes têm um céu. Cinzento, mas céu. Os desesperados têm um deserto. Meu pai olhava para trás: era mais o esquecido que o vivido. O que não lembrava era porque se esquecera de viver? Ou tudo tinha ficado lá, na mina que desmoronou? Quando se cruzava comigo, de pijama, a meio do dia, meu pai se justificava:
- Sua mãe quer que eu faça dessas coisas que criam alma na pessoa. Só que ela não entende: se eu estou vivo é porque não tenho alma nenhuma.
E agora, olhando-o sob aquele estilhaçado luar, me pareceu que meu pai não era senão poeira entre poeiras de Lua." (pag. 15)

Sem palavras outras. Estas são tudo.

Segunda-feira, Junho 18, 2007

Os Demónios à Minha Porta, José Manuel Fajardo

Vou aqui, exactamente:

"Estava parado diante da porta da minha tumba. Tinha a respiração agitada porque há muito que caminhava, mas não estava cansado. Simplesmente não queria recordar mais. Perguntava a mim próprio por que não vinham agora os meus demónios interromper-me, por que não se abria a portinhola do postigo como em tantas outras ocasiões e entrava por ela o medo, resgatando-me da memória. Por uma vez seria bem recebido. Mas não aconteceu nada. O silêncio era apenas perturbado pelo som da minha respiração e pelo assobio que, desde há alguns dias, ressoava de vez em quando nos meus ouvidos, como se fosse a música da minha angústia. Aproximei-me da porta e encostei a orelha á madeira. Ao princípio não ouvia nada. Depois, julguei ouvir os latidos longínquos de um cão, quase imperceptíveis, que pareciam vir do centro da Terra, como se fosse o próprio Cérbero ladrando à entrada dos Infernos. Seria outra ilusão dos meus ouvidos? Os latidos cessaram e, novamente, não se ouvia mais do que o som dos meus obstinados pulmões, empenhados em manter-me vivo apesar de me encontrar no reino dos mortos. O ligeiro ranger de um objecto a ser deslocado sobressaltou-me. Ouvira-o com toda a nitidez, no outro lado da porta. " (Cap. 9, pag. 139)

A Ignorância, Milan Kundera

"O regresso, em grego, diz-se nostos. Algos significa sofrimento. A nostalgia é portanto o sofrimento causado pelo desejo insatisfeito de regressar. Para esta noção fundamental, a maior parte dos Europeus pode utilizar uma palavra de origem grega (nostalgia) e, além disso, outras palavras com raízes na sua língua nacional: añoranza, dizem os Espanhóis; saudade, dizem os Portugueses. Em cada língua, estas palavras possuem um matiz semântico diferente. (....)" (p. 7)

Sexta-feira, Maio 18, 2007

O Insecto e outras histórias de mães e filhas, Claire Castillon

"Ele espera-a no corredor. Espreita a hora do banho dela enquanto eu faço o jantar. Isto dura há duas ou três semanas, ele reagiu estranhamente ao ver o pequeno soutien dela a secar com a nossa roupa interior no estendal da banheira. Perguntou-me porquê, e eu expliquei-lhe que era bom começar cedo, habituar-se depressa a usá-lo, assim que os seios começam a despontar. Ele ficou ali, a tocar nas alças e ao de leve nas caixas, depois abriu o armário dos remédios e tirou uma embalagem de desodorizante, disse que ia oferecer-lho para participar, também ele, naquela pequena transformação." (pag. 13)

Começa assim o conto que dá nome ao livro de Claire Castillon que acabo de ler, movida por mais um dos muitos acasos em que se vão tecendo os meus dias.
Todo o livro é assim: sem uma única palavra que esteja a mais, todas elas no sítio certo, às vezes assustador, demasiado cru, contido e excessivo ao mesmo tempo, chocante sobretudo Nenhum final deixa de surpreender.
Vale a pena.

Segunda-feira, Abril 16, 2007

A Fotografia

Gostei de ler. Gostei porque foi uma leitura partilhada. Foi por isso.

Sábado, Março 24, 2007

O último cabalista de Lisboa

O livro que levo na mala ;)

Segunda-feira, Março 19, 2007

O sábio e o imperador

Lavanto-me, vou até à estante e pego num qualquer livro. Ao acaso. Gosto de fazer isto de vez em quando.

"Na antiga China vivia um imperador que observava dia após dia os seus súbditos com a amior atenção. Através de uma das janelas do palácio via os palafreneiros trabalhar com os cavalos, os soldados treinando-se no manejo das armas, os jardineiros cultivando cuidadosamente o jardim. Através de outra janela contemplava o mercado da Capital, Lo-Yang, e interessava-se pelo relacionamento entre as pessoas: compradores, vendedores, os que ganhavam, os que perdiam.
E, à tarde, ficava a ver o varredor limpar a praça quando todos já tinham ido embora...
Dia após dia observava, mas, quanto mais observava, quanto mais escutava, menos entendia." (pag. 5)

Sábado, Janeiro 20, 2007

"As suas zonas erróneas"



E agora, é este o livro que me vai fazendo companhia. Este, leio devagar.

Cortar a levada....

Uma das situações abordadas no romance de João França, é a possibilidade de o comendador Bonifácio de Oliveira cortar uma levada, que irrigava os terrenos de uma família do Caniço, os Talaia, com o objectivo de construir uma fábrica de lacticínios.
O conflito acende-se. O José Talaia recusa a proposta de corte da levada, com a garantia de ter assegurada a compra do leite, uma vez que já o entregava numa cooperativa. O comendador mexe cordelinhos e ele acaba preso. Uns dias depois, o filho vai pedir explicações.
"- Quero saber onde está o meu pai.
- E vens perguntar-me a mim?
- Amecê deve saber. A culpa é d'amecê. Foi amecê que mandou a polícia levá-lo p'ra cidade. Há mais de oito dias.
Começa o comendador a enfurecer-se, não bem pelas perguntas feitas mas pelo tratamento de "amecê". Ele é senhor comendador ou então sua excelência, padrinho quanto muito, e nunca um "amecê qualquer. Levanta a voz, para admoestar:
-Não te admito faltas de respeito. Desaparece da minha vista! Depressa! - Volta-se para dentro e grita: - Rosa! Ó Rosa Sabina! Fecha a porta na cara desse atrevido! Anda, antes que me chegue a mostarda ao nariz.
(...)
Diz ele estar convencido ser o comendador o denunciante do pai, só porque entregava o leite a cooperativa e também por vingança à recusa do corte da água de rega. Mas a desgraça entrada em casa, onde a mãe morria de desgosto, não iria ficar sem mais nem menos. Ou o comendador fazia o pai regressar a casa ou então tem de ficar a saber quantos pães dava um alqueire, nem que ele, Quim Talaia, tivesse de passar o resto da vida na cadeia. Iria esperar mais um dia, dois no máximo, para ver o resultado. Depois, Nosso Senhor Jesus Cristo o ajudasse....
- Amecê já atremou o que eu disse?"

Uma Família Madeirense



"Uma Família Madeirense" é um romance de época, passado no Caniço, a minha freguesia. Gosto de ler João França e o prazer da leitura voltou a repetir-se também desta vez. Li rapidamente. Foi fácil imaginar os cenários, as situações. Adorei encontrar palavras madeirenses, de que tanto gosto. Recomendo.

Mapas para amantes perdidos

Terminei o livro já há bastante tempo. É um choque entrar naquela cultura muçulmana, vai-se lendo com incredulidade, com arrepios. De Kaubab, a mulher que insiste no cumprimento daquilo que lhe ensinaram, mesmo sem entender essas práticas, senti pena durante toda a leitura. Tudo aquilo é horrendo.
Depois fechei o livro, e percebi que há coisas semelhantes próximo de nós, na religião na qual crescemos. Mas aquilo que está perto não se vê tão bem como aquilo que está longe.
O livro é interessante, embora a tradução me tenha desiludido.

Quarta-feira, Novembro 15, 2006

"De quantas mãos preciso...?"

"De Quantas Mãos Preciso para Te Declarar o Meu Amor?"

Título do capítulo com início na página 435 de "Mapas para amantes perdidos."

Terça-feira, Outubro 17, 2006

A dívida do leite

"(....) Filhos e filhas, ao saberem que a mãe está às portas da morte, devem colocar-se imediatamente a seu lado para lhe pedirem que considere saldada a dívida que têm para com ela, a dívida que contrairam ao beberem o seu leite. É um privilégio e um direito que ela tem. Não há nada mais terrível para alguém que acabar de perder a mãe durante a sua ausência do que saber que ninguém lhe pergunatra se ela lhe perdoava a dívida do leite; deve-se implorar-lhe que lhe retire este enorme peso da alma. Não imagino os meus filhos a tomarem tal atitude quando a minha hora estiver próxima. Talvez Alá esteja a castigar-nos por termos deixado os nossos próprios pais no Paquistão e vindo viver para Inglaterra há tantos anos atrás."

(p. 226)

Sábado, Outubro 14, 2006

sacos cheios de fezes

(....)
"O clérigo da mesquita aconselhara os rapazes a manterem-se afastados ds sacos cheios de fezes que eram as mulheres terrenas e a esperarem pelas huris do Paraíso. Defendia que os rapazes deviam tocar no seu orgão com lenços de papel aquando na micção, que o mesmo se tratava de um apêndice repugnante. Além disso, como é evidente, considerava as relações sexuais algo tão obsceno que, sob o seu ponto de vista, o corpo tinha de ser purificado após tal acto através do banho.(...)

p. 198

Quarta-feira, Outubro 11, 2006

Os 32 sinais de excelência num homem

" - Diz-se que é um traço de excelência nos homens o facto de o seu umbigo, a sua voz e a sua respiração serem profundos e as coxas, testa e rosto serem largos e, além disso, de os seus pés, mãos, cantos dos olhos, palato, língua, lábio inferior e unhas se caracterizem por um tom vermelho vivo; segundo os antigos, é de bom augúrio o facto de os dedos e os nós dos mesmos, o cabelo, a pele e os dentes serem finos; os governantes da terra caracterizam-se por um contorno maxilar, olhos, braços e zona intermédia do peito longos; diz-se que a felicidade está assegurada se o peito, os ombros, as unhas das mãos e dos pés, o nariz, o queixo e o pescoço forem erectos e proeminentes; e, finalmente, as costas, as canelas e o membro masculino devem ser bem proporcionados e pequenos - valha-me Deus!"

(p. 183)

Valha-me Deus digo eu também.

Terça-feira, Outubro 03, 2006

Mapas....

(...) Estando apaixonada por um hindu, ela foi casada, contra a sua vontade, com um primo vindo do Paquistão, mas o casal divorciou-se, pois ela mantinha-se distante dele.(...) Embora ela ainda fosse jovem, ninguém estava disposto a casar com uma rapariga que não era virgem. (...) E os pais só conseguiram encontrar um homem mais velho interessado nela, o qual, segundo parece agora, tem mais três esposas: uma aos olhos da lei britânica e também da lei islãmica e as outras três apenas aos olhos da lei islâmica. Ele deseja um filho, mas as suas esposas só lhe dão raparigas, pelo que ele casou diversas vezes. (...)
Quando a mãe dela descobriu que ela se recusara a consumar o casamento com o seu primo depois de terem partilhado a mesma cama durante quase uma semana, abordou o noivi à parte e disse-lhe num sussurro:
- Viola-a esta noite."

(pag. 142)

Amantes perdidos...

Continuo a leitura de "Mapas para amantes perdidos". A leitura é interessante mas, ao mesmo tempo, de certa forma aterradora. A história passa-se na comunidade paquistanesa residente do Reino Unido, e através de acontecimentos envolvendo meia dúzia de personagens vamo-nos apercebendo das crenças e costumes da religião muçulmana. Kaubab é uma mulher crente, que leva à risca todos os ensinamentos que lhe foram ensinados desde o berço e se vê confrontada com os filhos que, tendo crescido em Inglaterra, pensam de forma diferente , e com o próprio marido que não leva as coisas tão aos extremos, motivo pelo qual ela não perdoa aos pais a escolha que fizeram. É assustador.

Sábado, Setembro 16, 2006

Um pintassilgo

"Acabei de enterrar um pintassilgo, Shamas-ji. Partiu o pescoço ao embater no vidro daquela janela. Veja se consegue descobri onde.
Caracterizando-se por uma fisionomia delicada, Poorab-ji tem lábios suaves, pescoço comprido e, como grande parte dos homens de meia-idade do Subcontinente, pinta o cabelo de um atemorizador negro puro.
A copa de cada sorveira-brava que cresce ao longo da bacia do rio é perfeitamente esférica, como fogo-de-artifício a explodir no céu.
- Aqui. - Poorab-ji aproxima-se e aponta para o minúsculo entalhe que o bico do pássaro havia deixado no vidro. Do bolso retira, então, um tosco cristal e encaixa-o no vidro, mantendo a palma da mão estendida debaixo do mesmo para a eventualidade de ele cair.
- Encontrei-o no bico do pintassilgo." (pag. 39)

Retomo a leitura de "Mapas para Amantes Perdidos" e deixo aqui este diálogo deslumbrante. O que tem de deslumbrante? Tudo. É da suprema simplicidade que eu acho que a escrita deve ser. Descreve pormenores. Torna o pequeno grande. Grandioso, na verdade.

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

Mapas para Amantes Perdidos

Vou começar uma nova leitura. "Mapas para Amantes Perdidos" é um livro que tenho a certeza que vou gostar de ler.
Abro o livro e é esta a dedicatória do autor, Nadeem Aslam: "Para meu Pai, que me conselhou no princípio, há tantos anos atrás, a escrever sobre o amor; (....)"
O livro tem 553 páginas e está dividido em estações do ano. A ideia é linda. Eu sempre quis escrever um livro que seguisse o mapa das estações.
Passo os olhos pelo índice. Dentro de cada estação, os capítulos têm nomes lindos, não se limitam a um número. "As Açucenas", "As Diversas Cores do Leite", e "De Quantas Mãos Preciso para Te Declarar o Meu Amor?" são os títulos de alguns dos 23 capítulos. O primeiro: "O Crepúsculo das Raínhas da Noite."
Obrigada, Patrícia. É lindo, este meu presente de anos.

Quarta-feira, Agosto 02, 2006

As novas bacantes

Levei este livro para férias por comodidade. Porque era pequenino e não ocupava muito espaço na bolsa. E, de lacto, li-o rapidamente, quase não precisei de mais tempo do que as duas ligações aérea entre o Funchal e Lisboa, e vice-versa.
O título original do livro é "Les dames de L'Agave", mas a adaptação do título não está mal, uma vez que a obra de Catherine Clément transporte para a actualidade, algures em França, o mito do Deus Baco e das Bacantes. É interessante e eu gostei de ler.

Sábado, Junho 17, 2006

Os territórios do Amor

É a primeira vez que leio Mario Delgado Aparaín.
Começa assim:

"Quando o guerreiro Milo Striga ia no quinto ano de prisão por ter conspirado contra os militares do golpe, há já bastante tempo que a mulher conhecera o amor e partira com um poróspero vendedor de livros agro-pecuários, um homem encantador que tinha conhecido quando andava pelos campos de cevada, nos arredores de Mosquitos.
Sabia-se que, em apenas um fim-de-semana daqueles tempos eternos, o desconhecido conseguira conquistá-la falando-lhe longamente da vida fascinante das minhocas californianas, o que bastara para a convencer de que no mundo ainda existem insuspeitados atractivos(....)"
(p. 7)

Encantador. Bem à maneira dos escritores latino-americanos.

Segunda-feira, Junho 12, 2006

O "Rosa Mexicano"

Já estou no penúltimo capítulo de "Íntimas Suculências", da mexicana Laura Esquivel. Teria prefrido se, em vez de uma série de histórias soltas, o livro fosse um romance. Mas não se pode ter tudo, nunca se pode.
O capítulo que agora início chama-se "O Rosa Mexicano".

"(...)
Somos aquilo que comemos, com quem o comemos e como o comemos. A nacionalidade é determinada, nao pelo lugar onde nos deram à luz, mas pelos sabores e pelos aromas qe nos rodearam desde a infância. A nacionalidade tem a ver com a terar: não com a pobreza da ideia de limites territoriais, mas com algo de mais profundo. Tem a ver com so produtos que essa terra prodigaliza, a sua química e os seus efeitos no nosso organismo. Os compostos biológicos do que comemos penetram o ADN das nossas células, impregnando-o com os sabores mais íntimos. Estes escondem-se nas profundezas do nosso inconsciente, aí onde se encontram as nossas recordações, e permanecem para sempre na nossa memória. (....)"

(p. 144)

Sexta-feira, Junho 09, 2006

Íntimas Suculências

"Os primeiros anos da minha vida passei-os junto ao fogão da cozinha da minha mãe e da minha avó, vendo como estas sábias mulheres, ao entraremno recinto sagrado da cozinha, se convertiam em sacerdotisas, grandes alquimistas que brincavam com a água, o ar, o fogo e a terra, os quatro elementos que constituem a razão de ser do universo. " (p.15)

Respiro fundo. Estou de novo no meu ambiente. Memórias, cheiros, rituais. Leio "Íntimas Suculências", de Laura Esquivel, a autora de "Como Água para Chocolate".

Terça-feira, Junho 06, 2006

"Sou um escritor frustrado"

Devo terminar hoje "Sou um escritor frustrado", que comprei na última Feira do Livro do Funchal. A história é interessante mas ao mesmo tempo arrepiante (até rima!).
O personagem principal é um professor universitário, excelente crítico literário (rimou outra vez), mas incapaz de escrever para além dos ensaios e das críticas. Por entre a frustração da falta de criatividade, um relacionamento desastroso e a inveja desmedida pelo sucesso de um colega que tinha tudo o que ele não conseguia, aconteceu uma coincidência, chqamemos-lhe assim.
Uma aluna entrega-lhe o manuscrito de um romance, para que lhe dê uma opinião sobre o seu trabalho. O romance é tão bom que ele decide apoderar-se dele e tornar-se no "escritor" que toda a vida ambicionara ser.
Primeiro regista o romance em seu nome, depois rapta a aluna e feha-a numa cave isolada. Mais tarde mata a mãe da aluna, e pega fgo à casa desta só porque lá se encontravam os únicos três manuscritos do romance, para além do que a jovem lhe tinha confiado.
Confesso que caí na tentação de espreitar o final, mas não digo já. Estou na parte em que começam a exigir-lhe mais escritos. Conversa ocm o editor:
"- Não importa que não seja tão bom, isso é o que interessa menos. Com o êxito do teu primeiro romance, o segundo vender-se-á por si só.
(...)O meu editor advertiu-me que não pensasse sequer em me comprometer com mais alguém, fez umas contas e uns dias mais tarde telefonou-me e disse-me que o problema estava solucionado. estavam tão entusiasmados comigo que queriam conceder-me o próximo Prémio Planeta.
-
Parabéns, conseguiste-o - acrescentou - ,já estás consagrado. Agora, faças o que fizeres, a crítica beijará os teus pése o público comprar-te-á. Com toda esta publicidade venderás como pão. Só tens que começar a escrever.
- Mas como é que me vão dar um prémio poir um romance que ainda não escrevi? - exclamei assustado.
-Parece mentira que me digas isso, tu que estiveste metido neste mundinho. Enfim, v~e-se que és um artista e não um homem de negócios. Aos prémios, o que lhes interessa é pôr na lista autores conhecidos, poder dizer que Muños Molina, Gala, gente que já tem um nome, obteve esse prémio. É politica editorial. O nome vende, enquanto o que é desconhecido......(...)" p.129

Muito interessante, sem dúvida. E frustrante (outra rima!). Em vez de tudo o que poderia escrever a propósito, vou terminar o livro calmamente e contentar-me em ser uma escritora frustrada.

P.S. É verdade, sim. O livro custou (Preço azul) 2,50 euros.

Terça-feira, Maio 30, 2006

O nome das coisas

Num breve intervalo, daqueles que destino à poesia, leio Sophia de Mello Breyner Andresen. De "O nome das coisas", deixo que a minha alma se encha com um dos poemas mais pequenos. Porque o sentido nada tem a ver com o comprimento.
Dois pequenos versos, cá em baixo, na página 48. Ao alto, o título: A paixão nua.

"A paixão nua e cega dos estios
Atravessou a minha vida como rios"

Lindo.

Segunda-feira, Maio 29, 2006

Guerreiro da Luz (V)

"O guerreiro da Luz acredita.
Porque crê em milagres, os milagres começam a acontecer. Porque tem a certeza de que o seu pensamento pode mudar a sua vida, a sua vida começa a mudar. Porque está certo de que irá encontrar o amor, esse amor aparece.
De vez em quando, decepciona-se. Às vezes, magoa-se.
E então escuta os comentários: "como é ingénuo!".

Mas o guerreiro sabe que vale o preço. Por cada derrota, tem duas conquistas a seu favor.
Todos s que acreditam sabem disso.

in "Manual do Guerreiro da Luz", Paulo Coelho

Sábado, Maio 27, 2006

Contos Madeirenses

Tenho andado a ler "Contos Madeirenses", organizados por Nelson Veríssimo e com edição da "Campo das Letras". Leio devagar, ao ritmo que faz as descobertas terem mais sabor. Encontro autores que não conhecia e gosto do que vou lendo.
Maximiliano de Azevedo (1850 - 1911) abre o defile de autores, com um conto intitulado "A alemã". Já terminou? Tão pequeno...volto atrás e conto as páginas: sete, afinal. Sorrio e bendigo a sabedoria da Natureza que não confere a todas as coisas o mesmo ritmo de por nós passarem.
Passa rápido tudo aquilo de que se gosta: uma tarde de sol, uma boa conversa, uma flor oferecida e colocada numa jarra, o tempo que as crianças demoram a adormecer quando se lhes conta uma história de princesas. Um bom livro, ou, neste caso, um bom conto.

Terça-feira, Maio 23, 2006

"um abissurdo"

"É um abissurdo só se quêrer um homem para ter na cama um côbertor d'orêlha. Mas também é um abissurdo um homem só quêrer mulher para ter na cama colchão quê pisca os olhos. Chega a ser vexaminoso.»

Palavras que o narrador de "Um Amor Feliz" recorda ter ouvido da boca da brsileira Xô, uma das suas antigas amantes, numa viagem a Itália, "em Julho ou Agosto de 1963 ou 1964". p.281

Adorei ler a palavra "abissurdo". Nunca tinha visto uma palavra "brasileira" assim com forma, sem lhe ser roubada toda a sonoridade quando passada da oralidade para a escrita.

"escrever é fazer amor com as palavras"

"«(...)Não sei se contigo acontece o mesmo...Mas, para mim, escrever é primeiramente fazer amor com as palavras e depois...»
«Para mim não: com as frases é que faço amor. As palavras não passam de partes do corpo: os joelhos, os ombros, o peito...»

"Um Amor Feliz", p.271

Terça-feira, Maio 16, 2006

Um amor feliz (ainda)

Não pensem que as férias me Londres me tornaram malandra para a leitura. Tenho lido e bastante. Continuo a deliciar-me com "Um Amor Feliz", do David Mourão-Ferreira. É quando estou de folga e posso tomar o pequeno almoço sem pressa nenhuma, enquanto folheio vagarosamente o diário, à mesa do café, que leio com mais gosto. Pego no meu livro e faço com ele uma espécie de sobremesa numa refeição que por norma não a inclui. Já passada a fronteira das 200 páginas, deu-me de repente uma certa urgência e hoje já abri o livro mais de dez vezes, ainda que dispusesse para lhe dedicar não mais do que três ou quatro minutos.
"(...) «Ele não estava óptimo nem parecia estar óptimo. Sabia há uns poucos de meses que tinha um cancro nos pulmões.»
«Ah, sim? Mas o que me disseram foi que tinha sido de repente.»
«Até certo ponto será excato. É sempre de repente que se morre. mesmo quando já se está quase morto.»"
p.210

Domingo, Abril 23, 2006

Londres


Este foi o livro que me fez companhia durante as férias da Páscoa. Todos os meus guias de viagem tornam-se livros de estimação e este também já o é. Adorei todos os locais que conheci, acompanhada deste pequeno guia.

Terça-feira, Março 07, 2006

Guerreiro da Luz (IV)

"O guerreiro da Luz conhece a importância da intuição.
No meio da batalha, não tem tempo para pensar nos golpes do inimigo - então usa o seu instinto, e obedece ao seu anjo.
Nos tempos de paz, decifra os sinais que Deus lhe envia.
As pessoas dizem: "está louco".
Ou então:"vive num mundo de fantasia".
Ou ainda: "como pode confiar em coisas que não têm lógica?"


Mas o guerreiro sabe que a intuição é o alfabeto de Deus, e continua a escutar o vento e a falar com as estrelas."

(p. 63)

Guerreiro da Luz (III)

"Para o guerreiro, não existe amor impossível.
Ele não se deixa intimidar pelo silêncio, pela indiferença, ou pela rejeição. Sabe que - atrás da máscara de gelo que as pessoas usam - existe um coração de fogo.
Por isso, o guerreiro arrisca mais do que os outros. Busca, incessantemente, o amor de alguém - mesmo que isso signifique escutar muitas vezes a palavra «não», voltar para casa derrotado, sentir-se rejeitado no corpo e na alma.


Um guerreiro não se deixa assustar quando busca o que precisa. Sem amor, ele não é nada.

Guerreiro da Luz (II)

"Um guerreiro da luz tem sempre uma segunda oportunidade na vida.
Como todos os outros homens e mulheres, ele não nasceu a saber manejar a sua espada; errou muitas vezes antes de descobrir a sua Lenda Pessoal.
Nenhum guerreiro pode sentar-se em torno da fogueira, e dizer aos outros: «agi sempre correctamente».Quem afirma isto está a mentir, e ainda não aprendeu a conhecer-se a si mesmo. O verdadeiro guerreiro da luz já cometeu injustiças no passado.
Mas, no decorrer da jornada, percebe que as pessoas com quem agiu erradamente voltam sempre a cruzar-se com ele.

É a sua oportunidade de corrigir o mal que causou. Ele utiliza-a sempre, sem hesitar."

(p.98)

Manual do Guerreiro da Luz



"Um guerreiro da luz faz sempre algo fora do comum.
Pode dançar na rua enquanto caminha para o trabalho, olhar nos olhos de um desconhecido e falar de amor à primeira vista, defender uma ideia que pode parecer ridícula. O guerreiro da luz permite-se tais dias.
Ele não tem me do de chorar mágoas antigas, ou alegrar-se com novas descobertas. Quando sente que chegou a hora, larga tudo e parte para a sua aventura tão sonhada. Quando entende que está no limite da sua resistência, sai do combate, sem se culpar por ter feito uma ou duas loucuras inesperadas.

Um guerreiro não passa os seus dias tentando representar o papel que os outros escolheram para ele. "

(p.29)

"Manual do Guerreiro da luz", Paulo Coelho

Protesto e Canto de Atena


Apetece-me uma daquelas "pausas para poesia" de que já antes falei. Vou até à estante e, sem demora, intuitivamente, retiro o livro "Protesto e Canto de Atena", de Irene Lucília Andrade. Abro-o algures, confiando novamente na intuição, e leio, em silêncio, este poema:

Quando Deus criou os pássaros
disse: ide e voai
e aos homens disse:
ide e dominai as asas

mas os humanos não seriam
perfeitos como as aves
nunca souberam dar às asas
a correcta função da liberdade

construíram gaiolas
para amar os pássaros
e amá-los
foi essa perversa e patética forma
de os ter encarcerados

Deus
dá-me outro dom de imaginar
que não seja
o de reigir palácios gradeados
desamparados simulacros de ninhos
onde o rasgo do olhar se quebra
e a vontade endurece
como os ossos.

(p. 46)


Leio outra vez. Mais uma ainda. E volto a colocar, no seu lugar exacto, "Protesto e Canto de Atena". Ainda bem que acontecem destes acasos: encontrarmos exactamente aquilo de que precisávamos, para sermos um pouco Felizes.

Sábado, Março 04, 2006

Perturbação

A certa altura, o narrador explica tratar-se de um Amor Feliz porque é um Amor sem história. Ou será ao contrário?
A verdade é que a história deste Amor é feita assim, de pequenas descrições do que se repete quase todos os dias, nesse encontro de amantes, invariavelmente à mesma hora (com um único atraso dela e eu já estou na página 83).
Descrições de pequenos gestos, com algumas falas pelo meio e mais algumas considerações.

"Mas compreendo, num relâmpago, o que até aqui não tinha compreendido: que a sua insegurança, para além da sua beleza, é o que supremamente me perturba; e que essa mesma insegurança é o que de dia para dia a vai tornando mais arrebatada, como se assim pretendesse compensar-se ou compensar-me, de dia para dia inventando tudo, reinventando tudo, aderindo a tudo, excedendo tudo, sempre que voltamos a ser, em cima desse divã (cada vez, aliás, com maior frequência), uma renovada praia submersa, uma renascida árvore na horizontal."

(p. 66)

Quinta-feira, Março 02, 2006

Mais um pouco de Amor Feliz

Continuo, com vagar, a ler "Um Amor Feliz." Impossível ler apressadamente. Reparem na beleza das descrições:

"Trazia um vestido, verde ou azul, muito simples, que aprecia feito de uma espécie de malha de seda e cuja saia écasée, largamente ondulando, a cada passo, um pouco abaixo dos joelhos, mais ainda acentuava o aspecto hierático e pungente da sua marcha, que dir-se-ia, nessa manhã de Sol, a marcha ritual de uma deusa triste."

(p.59)

Domingo, Fevereiro 26, 2006

O começo....

(....)

"Pego-lhe nas mãos, puxo-a ligeiramente para mim. Com os sapatos que hoje traz calçados, é um tudo-nada mais lata do que eu: mas ficamos logo com os rostos encostados. A seguir, afasta-se; e murmura, olhando-me bem de frente:
«Não era por isdto. Não, não era por isto. Eu acho que não era por isto.» Depois, cavando-se-lhe um vincozinho de dúvida entre as sobrancelhas: «É como se diz? Ou para isto?»
«Depende. Tanto faz.»

(p.34)

Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006

Um Amor Feliz


Descansem os leitores possivelmente preocupados com a minha estranha fixação pelo Gabriel García Marques. Comprei "Uma Amor Feliz", do David Mourão-Ferreira, e para já estou feliz com a minha escolha.


"Nem sei porque me apetece contar-lhe a si , precisamente a si, esta vulgaríssima história de um amor feliz.
Mentira! Claro que sei. Foi justamente você quem no começo deste ano me revelou um segredo de que eu nunca tinha chegado a suspeitar. E me confiou mesmo a fórmula de certas circunstâncias indispensáveis à existência de um «amor feliz»:
«Uma pessoa casada....só com outra pessoa casada.»
(p.16)

Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006

Doze Contos Peregrinos



Quase sem me aperceber estava de novo a ler Gabriel García Márquez. Gostei de todos os contos. Todos têm algo de surpreendente, que nos apanha desprevenidos no final da leitura. É este tipo de contos que eu gostarai de saber escrever.

Sábado, Janeiro 21, 2006

O Aroma da Goiaba


Li este livro assim que acabei o anterior. Li-o em dois dias apenas e antes de começar já sabia que ia gostar. Primeiro porque foi uma prenda de aniversário de dois amigos meus. Ora, amigos de verdade acertam sempre quando compram um livro para oferecer. Acertam porque nos conhecem bem, mas também porque a magia da Amizade entra para dentro do livro e torna essa leitura em algo de especial.
Depois por se tratar de uma entrevista. E sobretudo pelo facto de o entrevistado ser o Gabriel García Márquez. Alguns factos e ideias já eu conhecia de outras leituras, mas outros conseguiram surpreender-me. Uma dessas surpresas é o facto de ele ser supersticioso. Por exemplo, não escreve se não tiver no quarto flores amarelas, pois acredita que lhe trazem sorte. Há uma parte da conversa que Márquez mantém com Plinio Apuleyo Mendoza em que os dois se referem a esse aspecto. Acabando de falar sobre a sorte das flores amarelas e a repulsa pelo ouro, fazem uma associação entre o mau gosto e a má sorte.


"(Plinio) - Tu e eu aprendemos na Venezuela uma coisa que nos serviu de muito na vida: a relação que existe entre o mau gosto e a má sorte. A "pava", como chamam os venezuelanos a este efeito maléfico wue podem etr certos objectos, atitudes ou pessoas de gosto rebuscado.
-(García Márquez) - É uma extraordinária defesa que o bom sentido popular levantou na Venezuela contra a explosão de mau gosto dos ricos.
-Fizeste, cfreio, uma lista completa de objectos e coisas que têm pava, lembras-te de lagumas?
-Bem, há as óbvias, as elementares. Os caracóis atrás da porta...
-Os aquários dentro das casas...
-As flores de plástico, os perus reais, as mantilhas de Manila...a lista é muito grande.
-Mencionaste uma vez esses rapazes que em espanha entram a cantar num restaurante com longas capas negras.
-As estudantinas. Há poucas coisas tão "pavosas" como essa.
-E os fatos de cerimónia?
_Também, mas gradualmente. O fraque tem amsi "pava" do que o smoking, mas menos do que a casaca. (...)
-Tínhamos encontrado outras formas mais subtis de "pava". decidiste uma vez, por exemplo, que fumar nu não tinha efeitos maléficos, mas que fumar nu e passeando sim.
-E andar nu e com sapatos.
-Claro.
Ou fazer amor com as peúgas calçadas. É fatal. Não pode correr bem.
-Que outras coisas?
-Os inválidos que tiram partido dos seus defeitos para tocar um instrumento musical. (...)
-Suponho que haverá palavras com efeitos maléficos. Quero dizer, palavras que nunca usas quando escreves.
-Em geral, as palavras tiradas da linguagem dos sociólogos: nível, parâmetro, contexto. Simbiose é uma palavra com "pava".
-Enfoque também.
Enfoque, claro.(...)
-E pessoas com o mesmo efeito?
-Existem, mas é melhor não falar delas."

(p. 188-190)

Como se vê por este diálogo, é uma entrevista que é mais uma conversa de amigos, uma conversa entre dois escritores amigos. Tem este tom leve, cativante, e inclui algumas fotografias do escritor, em diferentes momentos da sua vida.
No prefácio, Plinio Apuleyo Mendonza recorda assim a reacção de García Márquez quando lhe apresentou a ideia da entrevista, que por sua vez lhe tinha sido apresentada em paris por uma marquesa, a pedido de um editor francês:
"É uma ideia do caraças", disse. "Não estás a ver que dessa forma poderíamos dar por despachadas para sempre as entrevistas?"

Terça-feira, Janeiro 03, 2006

Fim de um Litígio

"Vim hoje, pela última vez, visitar o que foi a minha paisagem, estas quatro ruas onde viviam as pessoas da minha condição, que cumprimentava e me cumprimentavam; (...). Nada há nela que recorde a minha vida, é tudo uma fachada estranha, mas, por vezes, a luz apaziguadora da tarde, um gesto do vento entre as suas árvores, um movimento das sombras através das suas montanhas, um persistente som dos pássaros ou uma precipitação de aguaceiro, fazem-me sentir, por instantes, que ainda permaneço. Que ainda hoje é uma manhã lenta de um longo dia que o tempo atravessa vagarosamente, enquanto os meus olhos acariciam as lajes do meu pátio, os ladrilhos e os azulejos que mandei trazer da Andaluzia e as folhas soltas do limoeiro do quintal." (p.283)

Despede-se Dona Inês e limita-se a ser uma morta porque chegou ao fim o lítigio de séculos pelas terras do Vale de Curiepe. Um descendente de Dona Inês, Francisco, e um descendente do escravo liberto Juan del Rosário, José Tomás, chegam a um acordo, que resultará na construção de um empreendimento turístico de luxo.
Dona Inês, estupefacta:

"Agora dizem ao Francisco que deve falar com José Tomás e ao José Tomás que deve falar com o Francisco porque a falar é que a gente se entende. Já vês tu o que é a ignorância. Se eu soubesse que o meu pleito se resolvia numa conversa, tu pensas que eu andaria a saltar de procurador em procurador, raivosa como uma cobra cada vez que me chegavam notícias de que os teus negros se tinham assente nas minhas possessões, e quando me levavam aos demónios quando me diziam que para maior ousadia tinham levantado uma igreja? (...) Conversar, Alejandro, era só isso. Anota, escrivão, porque já estou farta de que a história me tenha vituperado: dona Inês mandou queimar a aldeia a Juan del Rosario porque não sabia negociar." (p.272)


Fechei o livro "Dona Inês contra o Esquecimento", da venezuelana Ana Teresa Torres, contente por o ter lido e já dominada pelo entusiasmo de inicar uma nova leitura, ainda por decidir.

Sexta-feira, Dezembro 23, 2005

matéria solar


42

Vê como se morre devagar
neste inverno
que se aproxima da cintura;

como a chuva entra pelo sono
e a sombra mais amarga
se vai juntando à terra nua;

ou a fria chama da cal
tarda.
(p.325)


Abri o meu Eugénio de Andrade à procura de qualquer coisa triste para ler. Queria ler alguma coisa que conseguisse suplantar a tristeza que sinto. Mas é impossível.

Quarta-feira, Dezembro 21, 2005

Atavios


Mais poesia. "Atavios" de Teresa Klut. Li este livro começando pela primeira página, uma coisa que raramente faço quando leio poesia. Mas por alguma razão que desconheço, provavelmente razão nenhuma, abri-o na primeira página. Fui lendo devagar e passando as páginas devagar, uma a seguir à outra. Quando dei por mim tinha chegado ao fim de "Atavios".
O livro está dividido em duas partes: a primeira intitulada "morrer" e a segunda "nascer".
O amor. Outra vez o amor.

XVI

Um amor assim só acontece uma vez.
Assim, só um avez.
Um amor que fala esta língua,
tem um cheiro próprio,
um sabor intenso,
uma luz quente.
Se o defraudamos, nunca mais volta.
Nunca mais.
A ironia é sabê-lo tarde demais
como uma melodia distante e bela. (p.45)

XVII

Uma melodia distante e bela. (p.47)


XXIII

- Queres saber a única verdade que a vida encerra?

- Queres que te diga o que fica depois de tudo?

- Ou preferes ficar num abraço que só os meus braços
te sabem dar? (p.59)

XXV

- Vês? Esta é a única verdade! (p.63)


Estou na última página. O livro termina com este poema de uma única frase. Fico nostálgica. Com saudades dessa tal "única verdade" que me escapou sempre. sempre. sempre.

Domingo, Dezembro 18, 2005

todo o amor?

Deixo repousar Dona Inês por entre os escombros de todas as suas gerações passadas, deixo-a descansar dentro do livro fechado, deixo-a parar de contar e dormitar um pouco, deixando escapar de vez em quando os habituais reparos à má memória de Alejandro.
Deixo repousar Dona Inês e abro "A criança em ruinas". Outra vez o jogo.

"todo o amor do mundo não foi suficiente porque o amor não serve de nada. ficaram só
os papeis e a tristeza, ficou só a amargura (.......)"
(p.75)

ora pois então. o amor não serve de nada. não? o amor. o amor não serve de nada. não serve não. não serve de nada e é tudo o que eu quero.

Outra vez Dona Inês. Nostálgica.

Voltei a "Dona Inês contra o Esquecimento" e passaram dois séculos, na sucessão de acontecimentos que vão compondo a história da Venezuela. Por entre generais e revoluções, terramotos e desgraças, em que sempre está envolvido algum descendente ou conhecido da família de Dona Inês, vamos acompanhando o desenvolvimento do lugarejo chamado Caracas do início do livro até à cidade do século XX. Dona Inês, a morta, continua a falar com o marido morto, e dá-lhe raspanetes, repreendendo-o pela sua ingenuidade ou ignorância. Os terrenos de Dona Inês foram expropriados. A casa onde viveram várias gerações acabou no chão, por força do progresso.

No capítulo intitulado "Léon Bemdelac descobre a América (1926-1935)", ficamos a conhecer um turco, ourives de profissão, que chegou à Venezuela sem nada, para começar um negócio, fixando-se na pequena Barcelona, antes de decidir mudar para Caracas. Compra um burro e torna-se vendedor ambulante. Quando as pessoas ouviam o badalo que tinha posto na testa do burro, gritavam: "Aí vem o turco Vendelá - e cumprimentavam-no com simpatia e perguntavam-lhe - Vendelá, que trazes aí para vender, Vendelá?"
"Léon Bendelac imaginava Caracas como uma imensa urbe onde se via completamente perdido. Além disso, o cheiro do mar reconfortava-o, a neblina do amanhecer e a brisa entre as palmeiras traziam-lhe, por vezes, um gesto familiar muito breve, mas suficiente para o acompanhar na sua solidão." (p.172)

(Faço uma pequena pausa. Fecho o livro por instantes, marcando a página com a mão, e penso que é este o efeito do mar em mim. O mar reconforta-me, sempre. O mar acompanha-me na minha solidão.)

Leio rápido, chego à terceira parte (1935 - 1985) e inicio o capítulo "Dona Inês Nostálgica":

"Morreu o General Gomez, Alejandro, a morte mais dificil da nossa história. (....) Choraram-no os seus cento e dezassete filhos e as suas vinte e três mulheres, choraram-no os seus dez mil cavalos e as suas cinquenta mil vacas, choraram-no as suas dezoito fazendas e os seus trinta e dois rebanhos, mas não o chorou mais ninguém, porque quando toda a gente teve a certeza que tinha morrido, declararam-no ditador e tiraram-lhe o título de benemérito. (p.199)

Sexta-feira, Dezembro 16, 2005

o amor

Continuei o meu jogo pela madrugada dentro. Fechava o livro e pensava, tenho de dormir, fechava o livro, mas voltava a abri-lo. Abria o livro ao acaso depois de te o ter fechado e lia mais um poema, fazendo cada palavra demorar-se na boca, nos olhos, na cabeça. em cada palavra ficava um bocadinho sentada lá dentro, aconchegada, ou com medo, ou com certezas. ou com mais palavras apenas. com as minhas palavras não ditas. porque nunca soube escrever poesia.

É manhã e volto a repetir o jogo:


fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.


(p. 57)

é exactamente isso. o amor é tudo o que dizes. tudo e apenas.

Quinta-feira, Dezembro 15, 2005

também estou sozinha

Tinha dito, só um, já é tarde, a poesia só se pode ler devagar, tinha dito, mas depois. Depois apeteceu-me ler mais e abri o livro outra vez ao acaso, como num jogo. Abri o livro ao acaso como num jogo e li assim.



estou sozinho de olhos abertos para a escuridão. estou sozinho.
estou sozinho e nunca aprendi a estar sozinho. estou sozinho.
sinto falta de palavras. estou sozinho. estou sozinho.
sinto falta de uns olhos onde possa imaginar. estou sozinho.
sinto falta de mim em mim. estou sozinho. estou sozinho.
estou sozinho.

(p.33)



Eu também estou sozinha. Estou sozinha essas vezes todas repetidas e tornadas a repetir. estou sozinha. estou sozinha.estou sozinha. estou sozinha. também. também estou sozinha. sozinha estou. também sozinha. sozinha estou. também. sozinha, sozinha, sozinha. passo a vida a sozinhar. sozinhando vou, sozinhando ando, ando, ando, cansada de sozinhar, com saudades de sozinhar, farta de sozinhar, com vontade de sozinhar. sozinhadamente tudo se é e nada. nada. nada.

A criança em ruinas


Mergulhada num enorme cansaço, faço uma pausa para ler poesia.
Abro "A criança em ruínas", do José Luís Peixoto, e leio:


estou deitado sobre a minha ausência
como poderia estar deitado se existisse.
amanhã as ondas imitar-me-ão na praia.

(p.40)

Fecho o livro. E vou deitar-me para dormir como se já tivesse descansado tudo.

Segunda-feira, Dezembro 12, 2005

Crónica de guerra

"A menina chora e a negra aproxima-a do seu seio e diz-lhe muitas palavras que não sabe escrever: "Dona Isabel, diga-me sua mercê, como devo dizer, docinho, passarinho, menina com juízo, a negra te levanta, a negra te deita. Escreva-me sua mercê como são as palavras que eu digo." Isabel pega-lhe na mão e faz-lhe escrever o seu nome. "Não penses tu, Daría, que todas as brancas sabem escrever, escrever não é missão de mulheres. Eu prometo-te que, quando a guerra terminar, te ensinarei a escrever."
Alejandro, porque não nos dão um pouquinho de paz? Porque é que não posso estar tranquila a contemplar esta cena que gostaria que fosse a última que os meus olhos vissem?" (p.66)

Também me demorei a contemplar esta cena, primeiro sob a forma que têm as palavras escritas algures a meio do capítulo intitulado "Crónicas de Guerra (1810 - 1814)" e quase de imediato sob a forma de figuras e cenários que a minha imaginação costuma inventar para tudo o que vem nos livros de que gosto.
Até os piores momentos são descritos de tal forma que eu diria ficarem belos.
"O pranto da menina esgota-se e Daría sente que é apenas um pequeno fardo o que levaa entre os braços, fala-lhe, canta-lhe, com uma voz rouca que é o resto de um lamento, "São João se vai, o ano que vem, Isabelita, Isabelona, São João voltará, a tua neghra te leva, a tua negra te adormece." Isabel parece adormecida, mas Daría sabe que não é um sono tranquilo, passa-lhe o dedo pelos lábios fendidos pelo sol e o ventre inchado, já não chora, já não sua, abre, por vezes, a boca e a língua seca tenta imitar fatigadamente o gesto de uns lábios que mamam." (p.81)

Terça-feira, Dezembro 06, 2005

Se vós não me quereis

Continuo a gostar. O cenário dos acontecimentos é Caracas, na Venezuela. A narradora acaba por ir narrando a história do país, desde que lá se estabeleceram os primeiros colonos. Apercebemo-nos desde o início que convivemos com uma narradora morta, que vai atravessando os tempos, evocando os sucessivos acontecimentos e dirigindo-se aos diversos personagens. Dona Inês fala com o marido, com as escravas, com os filhos, e sobretudo com Juan del Rosário, um mestiço, filho do marido e de uma escrava, com quem alimenta um litígio pela posse de umas terras, que o marido supostamente teria prometido ao filho bastardo. Essa disputa acaba por tornar-se na razão de viver dos dois, sucedendo-se, ao longo de anos e anos, cartas e recursos para a coroa, cada um apresentando as suas razões.

No capítulo intitulado "Se Vós não me quereis ( 1789-1819)", dona Inês dirige-se a um dos reis de Espanha a quem foi apresentado o problema. Fala assim com Carlos Quarto, na sequência de algumas determinações deste em relação à forma de tratamento a dar aos escravos no novo mundo: "Que trabalhassem de sol a sol e não mais; mas tu pensas que o cacau se apanha a meio da noite? E já no cúmulo da tua soberana generosidade, que se regulassem os castigos, a prisão, a grilheta e o cepo e não mais de vinte e cinco açoites, e isso com instrumento que não cause contusão grave ou efusão de sangue. Tu não sabes que custa bastante manter um escravo para depois desperdiçá-lo com tareia? Não, não o deves saber. Deves supor que com um estalo de dedos, como te servem a ti e aos teus lacaios, os escravos aparecem à nossa frente. Pois fica a saber de que aqui, também, por mais prodigiosa que seja a América, as mulheres demoram nove meses a parir, e passam pelo menos quinze anos até que o caralhinho vá por aí, para não falar dos que morrem ainda crianças, os que desgraçam a mão com os machados ou aqueles que são mordidos pelas cobras." (p.55)

Sábado, Dezembro 03, 2005

Dona Inês contra o Esquecimento

Por vezes, a escolha de um livro pode ser assim: uma aventura no desconhecido, um fazer frente à sorte a ver o que nos sai. Foi o que me aconteceu neste caso. Comprei o livro sem dele nada saber e sem ter a mínima ideia de quem é a autora, Ana Teresa Torres. Apeteceu-me arriscar e comprei este livro. "Dona Inês contra o Esquecimento."
Comecei logo por gostar. O primeiro capítulo - Dona Inês entre Memoriais (1715-1732) - começa assim:

"A minha vida foi atravessar manhãs lentas, dias longos que o tempo percorria vagarosamente, vigiar o trabalho das escravas, vê-las varrer as lajes dos pátios, dar brilho aos mosaicos e azulejos que mandei trazer da Andaluzia, apanhar as folhas soltas do limoeiro e regar a goiabeira do quintal; bordar um ou outro ponto de uma toalha, ou dar uma volta pela cozinha para provar a sopa e procurar que tudo estivesse bem antes que chegasse Alejandro, e durante o almoço, perguntar-lhe o q se tinha discutido na Câmara, a como estavam os preços do cacau ou se tinha afundado o barco que o transportava." (p.13)

Sexta-feira, Dezembro 02, 2005

Agradece o Beijo (3)

Acabei. Talvez por desejar tanto começar a ler outro livro. O certo é que acabei e não me ficaram na memória muito mais partes que me apetecesse salvar. Volto a folhear o livro, na tentativa de encontrar alguma que me tivesse escapado. Demoro os olhos na página 247, mas as frases continuam a não me dizer grande coisa. Arrepio-me quando leio: "Uma mulher entra no carro que a transporta a sua casa. Uma casa onde lhe começa a faltar o ar e o sol não entra. Sobre ela, imagina aesvoaçar um bando de abutres que farejam a morte lenta do seu amor."
O livro começa no ano zero da vida de uma criança, quando esta está ainda dentro do ventre materno, e termina no ano 45, no momento em que Luísa (essa criança) assiste à morte da mãe. Os capítulos são contados por anos: ano um, ano dois, ano três, até dar uns saltos e chegar ao 45.
A história passa-se durante a ditadura de Salazar e tenta retratar a forma como a sociedade se estruturava à volta de determinados valores. Uma sociedade em que as mulheres não contavam, os maridos e os homens em geral dominavam tudo, e por detrás da aparência de poder e respeito se escondiam vícios como a pedofilia.
O que mais sobressai é a forma como as mulheres, as crianças e outros seres indefesos, como o caso do rapaz que queria mudar de sexo, são obrigados a viver no medo, incompreendidos por quase todos os outros. Mas a forma como tudo é descrito não me atriu. O cenário muda de repente sem se saber, até metade do livro, qual a relação entre as personagens, sem nenhum aviso, muda-se de um narrador para outro. Tudo bem, seria aceitável se eu não tivesse embirrado com o livro no momento em que comecei a lê-lo.
Talvez o verdadeiro defeito esteja em mim, que não fiz uma pausa (e deveria ter feito) quando acabei de ler o fabuloso Gabriel García Marquez. Devia ter parado. ficado o resto do dia sem ler mais nada e talvez o dia seguinte e quem saber ainda mais um. Vou tentar não repetir o erro.
Luísa despede-se de Constança, junto à sua cama do Hospital: "O tempo teve o bom gosto de lhe amenizar os traços e de a tornar mais bonita. Nunca os seus sorrisos se transformaram em esgares ou as rusgas em sulcos de desdém,nem a boca num traço de indiferença. É esta a imagem que guardarei para sempre, até ao dia em que, quem sabe, o meu filho me assista também nesta viagem.
Vá em paz mãe. Deixe-se embalar na nossa canção. Ainda se lembra." (p.309)

Quarta-feira, Novembro 30, 2005

Agradece o Beijo (2)

"Ouriço, ouricinho, mostra lá o teu focinho" (p. 49)

"Às tantas Flauta pára, arregaça as saias até aos joelhos e afasta as pernas. Num riso desdentado levanta a cara para o céu.
- Está a fazer chichi em pé! - diz Catarina estupefacta.
- Não faças barulho, é mesmo assim. - Luísa, já habituada às excentricidades da Flauta, faz-lhe sinal para se calar.
Quando a Flauta termina, deixa cair as saias e ri, ri como uma criança. " (p.52)

Terça-feira, Novembro 29, 2005

Agradece o Beijo



Não sei onde estava com o juízo quando me levantei, fui até à estante e escolhi o próximo livro para ler: decidi ler o primeiro ainda não lido com que esbarrasse. Calhou ser "Agradece o Beijo", de Ana Zanatti, que me foi oferecido pela editora na última feira do livro do Funchal.
A verdade é que já passei de metade do livro e ainda não consegui gostar dele. Leio mas não me apaixono. Em determinadas passagens irrito-me. Verei o que consigo salvar dele para aqui deixar.

A dedicatória: "À criança que mora dentro de todos." Uma citação da Marqguerite Yourcenar, na página anterior: As nossas fantasias bem se esforçam por vestir as coisas mas as coisas são divinamente nuas."
A cantiga que Constança canta à filha recém-nascida na página 23: "Morte que mataste Lira/Mata-me a mim que sou teu/Mata-me com os mesmos ferros/Com que a Lira morreu."
O jogo das crianças no recreio da escola, na página 45: "Q' linda falua/Q' lá vem, lá vem/É uma falua que vem de Belém/Passará não passará/Mas alguém ficará/Se não for a mãe da frente/É o filho lá de trás."

Na página 67, uma passagem sobre o jogo de sabores a que brincam as duas meninas, Luísa e Catarina: "Temos este hábito. Uma espécie de jogo. Começámos pelas flores, até descobrirmos que tudo tinha um sabor. O que sentíamos, víamos ou fazíamos. Até os segredos. A mim sabiam-me a violetas, a ela a folhas secas. Os trevos sabiam-lhe a medo. A mim o medo sabia-me a pó com um toque de lavanda a fazer lembrar a água de colónia do meu pai."

Memória das minhas putas tristes (3)

A menina dormiu toda a noite.

"Quando voltei fresco e vestido ao quarto de dormir, a menina dormia de barriga para cima à luz conciliadora do amanhecer, atravessada de um lado a outro da cama, com os braços abertos em cruz e senhora absoluta da sua virgindade. Que Dues ta guarde, disse-lhe." (p. 32)

Não cometo o erro de contar o resto da história....não vou falar dos outros encontros do narrador com a menina. Apenas deixo um excerto da pag.63.

"Desde então tive-a na minha memória com tal nitidez que fazia dela o que queria. Mudava-lhe a cor dos olhos conforme o meu estado de espírito: cor de água ao despertar, cor de calda de açúcar quando ria, cor de lume quando a contrariava. Vestia-a de acordo com a idade e a condição que convinham às minhas mudanças de humor: noviça apaixonada aos vinte anos, puta de salão aos quarenta, rainha da babilónia aos setenta, santa aos cem. Cantávamos duetos de amor de Puccini, boleros de Agustin Lara, tangos de Carlos Gardel, e verificávamos uma vez mais que os que não cantam não podem sequer imaginar o que é a felicidade de cantar. Hoje sei que não foi uma alucinação mas um milagre mais do primeiro amor da minha vida aos noventa anos."

Li todo o livro na mesma manhã em que decidi lê-lo. É Gabriel García Marquez, não são necessárias mais palavras. Para quê?

Segunda-feira, Novembro 28, 2005

Memória das minhas putas tristes (2)

O herói de noventa anos contacta a dona de um cabaré que muito tinha frequentado, para que lhe arranje a rapariga virgem. À hora combinada, ele chegou e a rapariga já lá estava, mas a dormir.

"Entrei no quarto com o coração enlouquecido e vi a menina adormecida, nua e desamparada na enorme cama de aluguer, como a pariu a mãe. Jazia meio de lado, de cara para a porta, iluminada do tecto por uma luz intensa que não perdoava qualquer pormenor. Sentei-me a contemplá-la na borda da cama com um deslumbramento dos cinco sentidos." Mais à frente:
"O melhor do seu corpo eram os pés grandes de passos silenciosos, com dedos compridos e sensíveis como os das mãos" (p.29)

Duas páginas à frente: "Tentando não a despertar, sentei-me nu ca cama com a vista já habituada aos enganos da luz vermelha, e analisei-a palmo a palmo." (...) Cantei-lhe ao ouvido: A cama de Delgadina está rodeada de anjos" (p.31)

Memória das minhas putas tristes


Demorei-me na estante à procura de um novo livro para ler e encontrei este, comprado na última Feira
do Livro. Comecei a ler e só parei no final da página 114, a última. Gostei, pois claro.
Até hoje gostei de todos os livros do Gabriel Garcia Marques. Este começa assim:

"No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma
adolescente virgem."

Domingo, Novembro 27, 2005

O teu lugar no meu corpo

O livro de Ana Teresa Pereira - "A coisa que eu sou" - está dividido em duas partes, cada uma com sete contos. Os da primeira parte estão identificados como "Ghost Stories", e os da segunda como "Fairy Tales".
Todos os contos são misteriosos, sombrios, com personagens e cenários que se entrecruzam sem sabermos se são os mesmos ou outros. Em todos há cheiros e flores. Muitos deles passam-se em jardins estranhos, povoados de perfumes, de sombras, de impossível, de memórias.
Há rosas, beladonas, camélias brancas, magnólias...flores que permanecem para além do tempo e de todos os mistérios. O penúltimo conto chama-se "O Teu Lugar No Meu Corpo" e começa assim:

"Ela cheirava a rosas e a flores de pessegueiro. No princípio Tom pensava que se tratava de um perfume, mas depois percebera que aquilo emanava da sua pele, como se tivesse entranhado o cheiro do jardim.
Mas isso não era demasiado estranho. Tinha algo a ver com a sua condição de planta, de pássaro, de livro.
«De sombra», dizia ela." (p.145)

Sábado, Novembro 26, 2005

As rosas

"Inclinou-se um pouco para a frente, fascinada. Deixou-se cair.
Por instantes, foi como se tivesse asas.
Depois a água fria. Abriu a boca e engoliu uma golfada de água negra e flores.
"Tom", pensou.
Fechou os olhos e, lentamente, deixou que a água a bebesse." (p.121)

Há finais, como este, que eu gostaria de ter escrito.

Camélias brancas

"Fora estranho voltar à casa depois de tantos anos.
A casa de onde mesmo os fantasmas tinham desertado. Se tivera alguma fantasia de reencontrar o menino louro que correra por aquelas escadas, que subira às árvores, que uma vez quase se afogara num dos tanques, ela não se confirmara.
Não era verdade que os meninos ficavam nas casas, à espera de que um dia os homens de cinquenta anos, de cabelos já não louros mas brancos viessem procurá-los, com os braços estendidos para a frente e as mãos vazias de dedos afilados."

É assim que começa o conto intitulado "Camélias brancas", na página 89. Gosto de um começo assim.

A coisa que eu sou


Ando a ler isto. "A coisa que eu sou", de Ana Teresa Pereira. Vou na página 73, no conto de que até agora estou a gostar mais: "Da realidade das sombras". Vou exactamente nesta parte:

"- Eras tu - murmurou.
- Sempre.
Ela, sentada à beira de uma fonte seca, no centro de um jardim abandonado.
Ela, imóvel, junto a uma porta que não existia.
Ela, ainda, descendo de um comboio, numa noite de nevoeiro.
(A forma como a sua cabeça caía para o lado, como a dum pássaro, quando fazia amor...)
Ela deitando veneno num copo...
Ela, morta num quarto fechado.
Perdeu-se nos olhos da mulher como num espelho."